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Desvendando a “Cerimônia do Cacau”

Embora na cultura e espiritualidade maia o cacau seja um elemento muito importante, não existe uma “cerimônia do cacau”. Atualmente, muitos grupos se encarregam de espalhar a febre do cacau com a suposta cerimônia maia do cacau em diferentes países e, embora seja uma prática inofensiva que pode ajudar as pessoas a adquirirem consciência espiritual, a verdade é que para a espiritualidade e cultura maia não há Cerimônia do Cacau.

Muitas pessoas que usam a chamada cerimônia do cacau nem conhecem seu Nahual ou são instruídas por verdadeiros Ajq’ijab (guias espirituais maias), a verdade é que o cacau é um dos elementos rituais usados pelos Ajq’ijab, mas não é um elemento central (e a para o qual se realizam liturgias especiais) dentro da prática maia original.

(As cerimônias do cacau brasileiras parecem se espelhar no Xukulem, cerimônia do fogo maia, mas usando elementos e cores distintas. Embora possam entendidas e vivenciadas como ritos, as cerimônias do cacau não são cerimônias maias autênticas.) Muitos dos altares de cacau de hoje usam elementos e cores distintos da prática maia do Xukulem, mas essas não são cerimônias maias autênticas.

Por outro lado, na cultura maia o uso do cacau é limitado a 5 grandes cerimônias ou ritos de passagem e como ingrediente de um ritual cujos elementos são minuciosos e obedecem a uma ordem pré-estabelecida pelos ancestrais. E sua preparação é tradicionalmente feita por mulheres treinadas para este ofício.

A seguir, citaremos as 5 cerimônias maiores onde se utiliza uma bebida chamada Atol de Cacau ou Champurrado*, uma mistura entre o milho e o cacau que representa a unidade entre o corpo e o espírito.

  • Cerimônia de Nascimento de um Bebê ou Apresentação: É quando um bebê nasce ou é apresentado perante as energias sagradas e é presenteado por um Ajq’ij (sacerdote maia).
  • Cerimônia de Casamento: Nesta cerimônia o Cacau e o Milho são usados como uma das etapas para a união de um casal.
  • Cerimônia iniciática de um Ajq’ij (Guia espiritual mais): Cacau e milho são dispostos em 20 mingaus e 20 tamales de milho, que representam os 20 Nawales (Nawal Q’ij) do sagrado calendário maia e com eles o fogo sagrado é alimentado em ordem e em energias específicas.
  • Cerimônia de inauguração de um Altar Maia: Nesta prática os frutos de cacau são dispostos na mesa, assim como o milho branco e amarelo.
  • Cerimônia de Morte: O cacau está presente na cerimônia de falecimento. Seu uso acalma o coração de quem perdeu um ente querido e é tomado no final da cerimônia do fogo maia, não durante ela.

Como podemos ver, não há uma cerimônia maia do cacau, em que a medicina seja o centro ou a base, mas algumas cerimônias maias com cacau. Portanto, esta prática não é uma autêntica cerimônia maia, mas sim um exercício de conexão e consciência espiritual, e em hipótese alguma pode substituir as autênticas cerimônias desta cultura milenar.

Já as culturas Olmeca e a Asteca tomavam um néctar de cacau sempre que iam consagrar o Teonanacatl (carne dos deuses), assim como o fungo psicotrópico Psilocybe Cubensis, para entrarem em Estados Xamânicos de Consciência Ampliada, mas também só nesta ocasião.

Munay,

Wagner

*Atol ou Atole é uma bebida quente tradicional maia a base de milho, porém pode ter diversos sabores adicionados como baunilha, cacau, canela e goiaba. Quando é feito com cacau, é chamado de Atol de Cacau ou Champurrado.