Universo Xamânico

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Roda da Medicina dos Ventos

“A Roda da Medicina é muito mais do que uma curiosidade antropológica em um mundo no qual os homens esqueceram como morrer com honra e coragem, e que são assombrados por seu passado. A roda é um “mapa” para o redescobrimento de nossa alma pessoal e também planetária. Quando o xamã descobre o Caminho do Guerreiro do Coração não tem nenhuma necessidade adicional de ter inimigos e viver competindo. Quando o xamã descobre o modo do Visionário ao completar o Trabalho do Leste, já não precisa mais tecer o futuro com as linhas desfiadas do passado. Quando o xamã aprende a ter domínio de si próprio, desperta do ‘sonho pessoal’ no ‘sonho sagrado’. Seguindo essa rota, que nos é dada pela Roda da Medicina, iremos descobrir os mistérios da nossa alma”.

Don Alberto

As Rodas da Medicina encontradas nas culturas indígenas são um modo de organizar o mundo de acordo com os poderes da natureza na qual somos intimamente ligados pelas energias que nos circundam. Toda cultura nativa tem uma versão da Roda da Medicina. Para os xamãs a percepção do mundo fica cada vez mais acessível ao caminhar pela roda, pois pelos seus caminhos podemos estabelecer uma ligação com o Eu Superior e o Todo, o que facilita o autoconhecimento, descobertas e realizações, na busca do equilíbrio em todos os níveis e planos. Cada uma das Rodas da Medicina é composta por pequenas rochas em forma circular, com uma roda dentro de outra. A maior parte delas são radiadas, sendo seus raios alinhados de acordo com posicionamentos astronômicos. Todas as rodas parecem estar relacionadas a ritos sazonais em que as tribos de diversas localidades se reuniam por vários dias para celebrar, realizar cerimônias e orações dirigidas ao Sol, a Lua e aos Espíritos Ancestrais. Qualquer que seja a cultura, as Rodas da Medicina são consideradas representações do Universo, tendo as quatro direções e os elementos (Terra, Ar, Fogo e Água) sagrados ligados a elas, e no centro a representação do Ser.

É claro que todos nós conhecemos o ciclo básico da vida: nascimento, crescimento, morte, renascimento. Mas o ciclo da vida é, mas que um ciclo, é uma roda, um Círculo que acontece em nossas vidas. Muitas rodas menores acontecem diariamente, embora nós não as percebamos frequentemente.

Uma roda xamânica sempre gira. Se você não lidar completamente com as situações do passado, eventualmente elas retornarão. Muitos de nós experimentamos isto, especialmente se nos sentimos impossibilitados de lidar com assuntos de nossa infância, abuso, negligência, e assim por diante. Infelizmente, estes assuntos sempre retornam, e continuarão retornando até resolvermos finalmente enfrentá-los. É até pior para aqueles que se agarram ao passado. Se você tenta parar num ponto qualquer da roda, sentirá o resultado em sua vida. Podemos simbolizar isto como uma órbita da Terra: digamos que a Terra parasse de rodar em qualquer ponto de sua trajetória, a gravidade puxaria a Lua e isto destruiria nosso planeta e todos os seus habitantes, todas as esperanças e sonhos. O mesmo ocorre, quando uma pessoa se agarra a um ponto na roda, ela termina caindo em depressão profunda. Caso isso ocorra com você, aproxime-se da natureza e observe como ela sempre está mudando. Ela é uma roda e ainda está girando e você faz parte dela. Enquanto a roda continuar girando, sempre haverá esperança. Procure encontrar o seu lugar na roda e deixá-la girar.

Faur (1997, p. 95) complementa:

Porém, permanecer apenas neste ponto limita o desenvolvimento. Por isso, depois de descobrir qual é a posição inicial dentro da Roda Sagrada, deve-se buscar a compreensão e o crescimento através de outros caminhos. Somente assim, o homem torna-se capaz de tomar as rédeas da sua vida, fazendo suas escolhas e agindo de forma consciente.

No ano 2011 em Cerro Negro, na zona administrativa de Salto, no Uruguai, exploramos um cemitério Charrua e fomos surpreendidos ao encontrar uma série de círculos de pedras similar a Roda da Medicina dos nativos norte-americanos. Cada círculo contém 29 pedras e estão a 100 metros de distância uma da outra, sendo sua ligação feita em linha reta, alinhando-as com o nascer do sol no solstício de inverno e com o pôr-do-sol no de verão. Rodas da Medicina similares foram encontradas recentemente do outro lado da fronteira com o Brasil, em Quaraí-RS, território onde viveram os Charrua, juntos com outros povos dos pampas como os Guenoa e Minuano.

Na nossa jornada com os nativos sul-americanos, aprendemos com que “o nosso Norte é o Sul”. Bem, deixem-nos explicar melhor: no hemisfério norte a estrela Polaris está sempre visível quando se olha para o norte; sendo assim; quando olhamos para ela ficamos de costas para o sul. Esta estrela não é visível para nós que moramos na América do Sul, mas sim a constelação do Cruzeiro do Sul que está direcionada para o Polo Sul. Ou seja, a estrela que nos guia durante a noite é o Cruzeiro do Sul (Unnuchila Catachilla na língua aymará), simbolizada pelos povos andinos com a Chakana, a ponte que nos liga ao povo das estrelas. Já os Charrua utilizaram a pata de ema para simbolizar essa constelação. Este povo narra em suas lendas que em seu último voo, o avô Berá, o Ñanduguasu, deixou sua pegada no céu para guiar seu povo pelo caminho da vida.

Quando estávamos estudando com Tayta Matzú, um xamã kallawaya, ele pediu que ao raiar do sol olhassemos para o Sul e dissessemos onde estavam as outras direções. Falamos que o Leste estava ao nosso lado direito, o Oeste à esquerda e o Norte às nossas costas. A partir deste momento passamos a praticar os ritos telúricos de acordo com a energia de cada hemisfério, apesar de respeitar as egrégoras que existem em diversas tradições.

Sentindo a energia telúrica do lugar, qualquer que seja, estamos harmonizando nosso corpo com a Roda da Vida. Este é um detalhe sutil dos xamanistas que operam de acordo com o ciclo do espaço e tempo no qual estão. Eles usam a força da Mãe Natureza como uma mesa de trabalho xamânico, com mais eficácia e menor gasto de energia. O Xamã telúrico opera xamanicamente com o poder da Mãe Terra e dos alinhamentos das energias cósmicas, que não podem ser “imaginadas” nem evocadas por “mentalização”. Os animais e as plantas sentem essa energia, e nós estamos reaprendendo a senti-las quando celebramos em harmonia com o mundo a nossa volta cada ciclo da natureza, neles nos inserindo com total equilíbrio.

Xamãs de todas as tradições sabem que a energia muda a cada estação e os ritos não são apenas celebrações, mas sintonizações sutis que podemos fazer para que o nosso corpo se harmonize com as novas frequências de energia que a Natureza está emitindo. Xamãs não seguem “regras”, mas procuram a harmonia com a natureza. Devemos ser coerentes com o que propomos e não cairmos em modismos ou seguir costumes sem entender por que eles existem. Esta diferença é fundamental tanto ao seguir o ciclo telúrico do hemisfério sul quanto do norte. Seguir não é bem o termo, pois seguidores são bons para as religiões dogmáticas e o Xamanismo não tem seguidores, e sim participantes. O grande sentido de um ritual é a participação de todos que estão presentes. Mas se seguirmos o que já está pronto, só em seguir e não em participar destruiremos mesmo a essência do Xamanismo, deixando-a reduzida a um estereótipo espectral.

Todos os caminhos místicos alertam para esse risco, o risco de substituir a essência pelo formalismo apenas repetindo fórmulas. A Mãe Terra também tem ciclos em que certos tipos de energia são produzidas, substâncias sutis, que podemos absorver e metabolizar em nós, através de nós, pelos ritos que praticamos, pelas celebrações que fazemos em total harmonia com as forças telúricas do hemisfério no qual estamos naquele momento, seja no norte ou no sul.

Trilhando o caminho da força telúrica, e como vivemos na América do Sul, resolvemos trabalhar a egrégora de nosso hemisfério respeitando o local no qual realizamos nossas práticas xamânicas. Lembrando que todas as culturas ancestrais celebravam a vida e os ciclos da natureza em seus cultos, que não eram de adoração, mas sim de sintonização e sincronização com a energia da Terra, do Céu, dos Elementos e das Forças da Natureza. Começamos em nosso Círculo Sagrado evocando as energias primordiais do Universo e seus elementos sentindo o fogo vindo do Leste, a água do Norte, a terra do Oeste e o ar do Sul. À medida que evocamos essas forças visualizamos as energias como grandes colunas do elemento em cada ponto cardeal, de onde sai um filamento energético e vem até nós, potencializando nosso corpo e saindo pelo alto da cabeça em direção ao Céu e pela sola dos pés rumo a Terra, criando um elo com estas energias e as potencializando. Procuramos realizar esse rito ao nascer do sol e quando ele está se pondo.

Roda da Medicina Sul-Americana

Estudando as tradições xamânicas dos povos originários da América do Sul encontramos uma Roda da Medicina de vinte nove pedras que, segundo descobertas arqueológicas e etnográficas, possivelmente foi utilizada pelos povos Charrua, Chaná, Chiriguano, Bohane, Guenoa, Minuano, Omaguaca e Yaro, e foi adaptada pelos yachacs, da Tradição Iniciática Nativa Andina, que lhe deram o nome de Roda da Medicina dos Ventos (Qalla Hampi Wayra). O que aqui será exposto é uma pequena parcela de um conhecimento maior, que permeia e perpassa a dignidade do verdadeiro legado vivo do nosso continente.

Observando as plantas trepadeiras, podemos verificar que elas vivenciam em seu desenvolvimento a energia telúrica do lugar em que vivem. As do hemisfério norte enrolam-se no sentido horário e a do hemisfério sul fazem o contrário. Movimentamo-nos na Roda dos Ventos no sentido anti-horário, fazendo o caminho do sol, atravessamos nosso círculo do Leste, onde há unidade em todas as coisas; para as emoções no Norte, onde aprendemos a trabalhar com as polaridades; para o físico no Oeste, onde nos reconciliamos com os opostos; para o Sul, onde encontramos direção e propósito; e para o Centro onde tornamo-nos iluminados.

A Roda da Medicina dos Ventos, simboliza os caminhos dos Quatro Ventos como uma bússola que nos auxilia na nossa caminhada pela Terra, passando pelos caminhos do Curador, Guerreiro, Mestre e Visionário. A Roda da Medicina é um caminho de quatro estágios ou passos, que o ser necessita galgar para se tornar uma pessoa de poder e conhecimento. Cada passo ou estágio é representado pelas quatro direções sagradas, que são portais energéticos tutelados por um Espírito Guardião que nos ensinam uma lição específica e nos impulsionam a seguirmos em frente por uma trilha numinosa. O Norte é o Caminho da Serpente, onde abandonamos as vestes do passado, tal como este réptil abandona sua pele. Na direção Oeste fica o Caminho do Jaguar, lugar onde obliteramos o medo e enfrentamos a morte. Ao Sul trilhamos o Caminho do Dragão, onde descobrimos a sabedoria dos ancestrais no bater das asas do Beija-flor e estabelecemos um elo com o divino. O Leste é guardado pelo Condor (Kuntur) que nos auxilia a ver além. Depois de percorrer todas as direções aprendemos que ao olharmos para o centro, no mais profundo âmago do nosso Ser, iremos descobrir que o grande conhecimento da alma e do Universo se manifesta interiormente.

A Roda da Medicina começa no Norte, lugar onde enfrentamos o nosso passado. Esta direção é simbolizada pelo arquétipo de Yacumama a grande Serpente do Amazonas, conhecida também pelos povos amazônicos pelo nome de Anaconda. O Norte é o lugar em que nos livramos do passado da mesma maneira que a serpente se livra de sua pele para que uma nova surja. É um ato de poder e um ato de amor. O modo da serpente nos ensina como caminhar com a sua barriga na Terra, a mãe de todos nós. Yacumama nos ensina a beleza. De como caminhar com beleza e trazer beleza para tudo que tocamos. Ela nos mostra que ao deixarmos cair a nossa antiga pele, livrando-nos do passado, estamos renascendo. O Trabalho do Norte é um ato de purificação, em que nos livramos de tudo aquilo que não tem mais sentido em nossas vidas. O nosso passado que, na maioria dos casos, continuamos cultivar, por comodismo, hábito, e com receio de abandoná-lo.

Temos medo do amanhã porque não o conhecemos. Por isso muitas vezes ficamos acorrentados a fatos passados de nossa vida. Nossa visão tem que se concentrar no momento em que estamos vivendo, procurando se abrir para o novo que virá no amanhã. Mas esse processo só pode ser realizado, se dermos espaço para tal. Para que isso ocorra, é necessário tirar de nossa mente tudo aquilo que está entulhado dentro de nós e que faz parte do passado. A Serpente quando vê tudo nebuloso à sua frente, no momento da sua troca de pele, procura passar entre as árvores querendo se livrar desse fardo que lhe está atrapalhando seguir em frente. Se não fizermos como a Serpente, não haverá mudança e novidades em nossa vida, corremos o risco de ficarmos estagnados no tempo e no espaço.

A Roda da Medicina dos Ventos nos ensina que no Trabalho do Norte devemos nos livrar do nosso passado como a serpente se livra da sua pele. Livrar-se daquela pele como uma serpente é um ato de poder e de amor, que tem a Terra e o Céu como testemunhas. Se fizermos assim, começaremos a caminhar novamente com beleza e graça sobre a Terra. O Norte é o “Caminho do Curandeiro”, o caminho em que o curador leva beleza para tudo o que ele toca. Assim ele traz equilíbrio e harmonia para seu corpo e em sua relação com a Terra.

Por esta razão nos trabalhos com a Roda da Medicina dos Ventos é necessário livrar-se de tempos em tempos de traumas que nos perturbam. Este é um processo cíclico e que faz sempre a roda continuar girando. E ao passar por cada um dos pontos cardeais, ou ventos, como é chamado nas tradições andinas, morremos para tudo aquilo que fomos um dia, por meio dos ritos de iniciações. Essa “morte” é de fundamental importância, pois sem morrer para o que nos falaram que éramos, ainda estaremos presos a esse sistema de credos e valores que nos foram impostos. É por isso que, no Trabalho do Oeste na Roda da Medicina dos Ventos, temos que ter um bocado de coragem para desafiar nossas crenças e enfrentar a morte, nossos medos e anseios.

Saindo do Norte realizamos o Trabalho do Oeste. Representado pelo Jaguar, conhecido pelos nativos andino-amazônicos pelo nome de Otorongo. O Oeste é um lugar onde enfrentamos a morte. Quando se faz o Trabalho do Oeste, é necessário que passemos por um rito de passagem, uma morte simbólica de tudo que fomos antes. Um ritual comum no Trabalho do Oeste é a cerimônia do fogo, no qual uma flecha que simboliza recordações de eventos passados é queimada, muito parecida com a tradição Lakota de queimar as trouxinhas com coisas negativas. O Oeste é onde pisamos além do medo, da raiva, da violência, e da ira. Raiva e ira perpetuam o medo dentro de nós, assim temos que aprender o modo de ser do guerreiro pacífico, o modo da não-violência. Realizando o Trabalho do Oeste iremos além da morte, de forma que a morte já não nos assombrará, uma vez que a teremos como uma companheira. Na tradição andina, deixamos nosso passado coletivo, e este é levado por Otorongo. Segundo a Roda da Medicina dos Ventos, o Jaguar é a incorporação do guerreiro luminoso que vive sem medo, e que não tem inimigos neste mundo ou em outros mundos.

Na Roda da Medicina dos Ventos, o Oeste vem sempre depois do Norte, e o Trabalho do Sul não pode ser feito até o Trabalho do Oeste ser completado. O Sul dependendo da Tradição é representado por Kenti (Beija-Flor) ou o Dragão, e é o lugar de ensino dos mistérios e das tradições. É o lugar onde o os peregrinos da roda se tornam pessoas de conhecimento. É lá que eles aprendem a ficar invisíveis. Onde nós, como buscadores do conhecimento sagrado, não temos nada a esconder ou a defender, e poderemos deixar as pessoas nos verem. O Sul é um lugar crítico para as pessoas em recuperação, especialmente de vícios e hábitos. Na maioria dos programas de recuperação de viciados, são ensinadas as pessoas a acreditar que elas serão sempre viciadas. Na perspectiva xamânica, você admite o fato que você é um alcoólatra, entretanto, os passos treze e catorze falam do que as pessoas estão se tornando e não o que foram no passado. Esta é uma das falácias da psicologia ocidental. Nós somos as únicas pessoas no mundo que se definem de acordo com algo que nos aconteceu no passado. Na tradição xamânica você se define em termos de quem você está se tornando.

A chave para achar seu futuro está na convicção do xamanismo sobre a natureza do tempo. Há dois tipos de tempo: monocronológico, ou tempo linear, que voa como uma flecha; e policronológico que é cronometrado de acordo com o giro da Roda da Medicina. Fazendo o trabalho da Roda da Medicina, um indivíduo aprende sair do tempo linear no cronômetro policronológico. É um tempo que não é casual, um tempo em que você pode chamar seu destino e pode cutucar o futuro. Isto é essencial em qualquer desenvolvimento do Trabalho do Leste. Caso contrário, você poderá tornar-se uma vítima. As chaves para entrar no tempo policronológico são as técnicas arcaicas de êxtase. Para os nativos andino-amazônicos, algumas dessas técnicas podem ser tão simples quanto a meditação, alcançando resultados notáveis.

Estas técnicas são processos elegantes para renovarmos a arquitetura do cérebro, para ter acesso a poderes desenvolvidos, tais como desenvolver capacidades ampliadas de nosso neocórtex que nos permite se autocurar, sentir distintamente, envelhecer diferentemente, e morrer diferencialmente. A maioria das pessoas nunca vão além do Trabalho do Sul. Os que conseguem realizar o Trabalho do Leste se tornam visionários. O Leste é o lugar onde você exercita seu conhecimento e recebe o poder para realizar o bem aos outros. É o lugar onde pressentimos o tipo de mundo que queremos quando somos crianças, e o mundo que as crianças irão herdar. Sua energia arquetípica é representada pelo Condor, o ser que vive sobre as nuvens e de quem a visão se estende além do horizonte, além do tempo e do espaço. O Leste é o caminho mais difícil, o lugar onde conseguimos ver como Condor vê acima das nuvens. E onde Kuntur nos ensina a planar para esses lugares em que nunca havíamos estado antes. De lá regressamos para nossa rotina diária no trabalho, casamento, amizades, etc. e quando trazemos cura para os outros e transformamos esses ambientes. No Leste, o usual não é aceito, em vez disso tornamo-nos os agentes da transformação e visionários, e trazemos a magia do mundo à vida cotidiana.

Direções Sagradas

Direção Leste – Caminho do Visionário. Poder da Luz. Portal para o Espírito.

Clã: da Harpia.

Cor: Amarelo.

Corpo: Espiritual.

Elemento: Fogo.

Espírito Ancestral: Pai Sol.

Guardião: Kuntur Apu Chin.

Direção Norte – Caminho do Curador. Poder da Introspecção. Portal das Emoções, do Entendimento e da Integridade.

Clã: da Serpente.

Cor: Vermelha.

Corpo: Emocional.

Elemento: Água.

Espírito Ancestral: Mãe Lua.

Guardião: Yacumama, a Senhora das Emoções.

Direção Oeste – Caminho do Guerreiro. Poder da Transformação. Portal do Corpo, do Grande Mistério da Vida e do Enfrentamento dos Medos.

Clã: do Jaguar.

Cor: Verde.

Corpo: Físico.

Elemento: Terra.

Espírito Ancestral: Mamantuá, nossa Mãe Terra.

Guardião: Otorongo.

Direção Sul – Caminho do Mestre. Poder do Conhecimento e da Sabedoria. Portal da Mente, da Força de Vontade e da Sabedoria.

Clã: do Beija-flor.

Cor: Azul ou branca.

Corpo: Mental.

Elemento: Ar.

Espírito Ancestral: Wayrapantuá, Pai Céu.

Estação: Primavera.

Guardião: Kenti.

Aqueles que conseguem realizar todos os trabalhos da Roda da Medicina dos Ventos, passam pelo Rito Iniciático (Gran Karpay). Em nossos estudos descobrimos que a Roda da Medicina dos Ventos é um caminho de conhecimentos e esclarecimentos que são passados aos iniciados. Ao percorrer a Roda da Medicina dos Ventos constatamos que este é um caminho de poder, de conexão com as forças do Espírito. O caminho do poder é diferente, ele requer uma experiência com o Espírito em seu próprio terreno, o Infinito. Quando entramos em contato com as poderosas energias ancestrais ocorre uma tremenda cura. Nesse processo, desgarramos da limitada energia de nosso próprio ser e experimentamos uma comunhão com o Grande Mistério e toda a sua Criação.

Ao realizarmos o Trabalho do Norte, tiramos de cima de nossos olhos a membrana que não nos deixava ver adiante, tal como a Serpente faz ao trocar de pele. Nos desvencilhamos do nosso passado como Yacumama faz com seu couro, tudo de uma só vez, como um ato de amor, um ato de poder. Neste caminho exorcizando as sombras do nosso passado, reconciliamos com a nossa história pessoal e aprendemos a caminhar com beleza sobre a Terra. No Oeste, no caminho do Jaguar, pela fenda entre os mundos, aprendemos a ir além do medo e nos tornarmos um(a) Guerreiro(a) Espiritual, que, requisitado pela vida, aprendeu a conhecer a morte sem temê-la, tendo-a como uma conselheira. No Oeste aprendemos a despertar do pesadelo coletivo da história e descobrir o caminho do Guerreiro do Coração.

O Vento do Sul é intenso e machuca, e, para quem não está preparado, pode ser bem doloroso. No Sul, o iniciado se encontra com os Ancestrais, aprende os ensinos do Grande Mistério, e utiliza-se da energia de Kenti, o Beija-Flor que consegue fazer o que não pode ser feito. É lá que todos os buscadores pretendem encontrar o “Sonho Sagrado”, aquele que nos dará as chaves dos portais do Leste, que é a jornada mais difícil que o peregrino empreende. No Trabalho do Leste, desenvolvemos o presente da sabedoria e empregamos isto para pressentir um mundo no qual haja harmonia, equilíbrio e paz. Esse é o caminho do visionário, que nos auxiliará a desdobrar o “Sonho Sagrado” da evolução que as estrelas, árvores e humanos obedecem. Lá passamos a entender a grande lei cósmica realizada pelo Grande Mistério Universal.

Na Grande Iniciação, nós removemos os paradigmas que já não nos servem, e quebramos com as convenções que nos foram impostas desde nosso nascimento, mas nunca concordamos. Para os yachacs, renunciando um passado que não nos serve, que nunca pode nos servir, não é uma destruição desses pedaços um por um, mas sim destruí-lo de vez, agindo como um ato de amor e como um ato de poder. A partir deste momento, passamos a ter completa responsabilidade pela pessoa que nos tornamos. Olhamos as linhas do destino nas nossas mãos e as entrelaçamos. Encontramos a Senhora do Destino e dançamos com ela, conduzindo-a pelos salões do tempo e espaço.

Munay,

Wagner

P.s.: Saiba mais informações sobre esta roda no livro “Xamanismo – O Caminho do Coração” de nossa autoria.