Universo Xamânico

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Ñawis

Napaykuna!

Independentemente da tradição xamânica, os xamãs consideram que o indivíduo recebe ou perde energia por intermédio dos seus vórtices energéticos, conhecidos geralmente por chacras. Já os yachacs (xamãs andinos) chamam pelo nome de ñawis, uma palavra runasimi que literalmente significa “olhos”. Mas falam também dos chumpis que são cintas energéticas, que formam parte do nosso Campo de Energia Luminosa (poq’po) e envolvem o nosso corpo na altura de cada ñawi. Os canais de energia ou nadis do tantrismo são chamados de cekes (linhas de energia), palavra que também utilizam para referir-se as linhas de energéticas terrestres que unem as huacas (lugares sagrados). Uma huaca é um ponto de intercessão entre um ou mais cekes, como os ñawis é um ponto de encontro entre dois ou mais nadis. Prana (energia vital) equivale ao conceito andino de kawsay (vida). Para eles a energia sutil presente na atmosfera que envolve o mundo, é nomeada por Kawsay Pacha (plano energético vital). O famoso despertar da kundalini no conceito andino equivale a elevar o kamaq (energia suprema criativa).

Independentemente de onde nascemos, cada um de nós tem um esqueleto com exatamente o mesmo número de ossos. Da mesma forma, todos nós partilhamos a mesma anatomia luminosa, que inclui os ñawis e os meridianos. Esses centros energéticos giram um palmo fora do corpo e fazem o link entre a nossa coluna vertebral e o sistema nervoso central. Eles são um canal direto com a rede neural humana. Giram no sentido horário e anti-horário. Conforme sabemos o Cosmos é expansão e recolhimento, em todos os planos. O movimento horário faz com que o ñawi projete energia para fora. O anti-horário é para captar energia do ambiente. Cada um tem uma frequência única e uma cor. Os vórtices energéticos de um recém-nascido apresentam sua cor pura e viva: verde escuro no primeiro ñawi, vermelho no segundo, dourado no terceiro, prateado no quarto e violeta no quinto. À medida que envelhecemos as cores utilizadas em nossos centros de energia se tornam fracas e opacas. Um trauma ou qualquer tipo de perda em nossas vidas deixam seus resíduos tóxicos para trás. O lodo que adere a um ñawi não permite que este vibre na sua frequência pura e o nosso envelhecimento físico é acelerado. Quando o xamã completa seu processo de cura, os ñawis se tornam claros e vivos, girando livremente e vibrando com a sua pureza original novamente.

Na cosmogonia andina, à medida que a energia criadora desce a partir do éter, se densifica e separa-se em quatro elementos básicos que habitam toda matéria viva ou inerte. Estes elementos são água (unu), terra (allpa), fogo (nina) e vento (wayra). Eles são parte essencial da criação e estão conectados ao nosso corpo físico como também ao luminoso. Nos Andes, diferente das culturas orientais, os yachacs veem cinco cinturões de energia rodeando o poq’po, com o vórtice energético (ñawi) a frente de nosso corpo. Indentificamo-os a seguir, de baixo para cima, com suas cores predominantes e elementos, e chacras correspondentes para facilitar a compreensão.

ÑawiChumpiChakraPosiçãoCorElemento
SikiYanaMuladharaPeríneoPretoÁgua
SvadistanaSacro
Q’osqoPukaManipuraPlexo solarVermelhoTerra
SonccoKoriAnahataCoraçãoDouradoFogo
KunkaKolqeVishuddaGargantaPrateadoVento
Uma-PukioQulliAjnaSobrancelhaIndigoÉter
  SahasraraCoroa  

Como se pode ver existe coincidência dos ñawis andinos com os chacras tântricos em relação com órgãos do campo luminoso responsáveis de canalizar a energia cósmica. A única exceção é o sahasrara, o chakra da coroa, pois os yachacs não consideram como ñawi, embora saiba que é pela coroa que se absorve a energia vital refinada, sami, e também é o local por onde entra o kamaq (energia suprema vital) na hora do nosso nascimento, os Hopi do sudoeste norte-americano e Yaquis da parte central do México também compartilham da mesma crença.

A localização dos ñawis está relacionada com diferentes glândulas e as cores predominantes são as frequências vibratórias básicas para afinar este vórtice de energia, restabelecendo a harmonia em certos aspectos de nossa vida. O trabalho com os chumpis é realizado num ritual que o yachac os abre e utiliza umas pedras de poder (chumpi khuyas) utilizadas especificamente para o trabalho como os ñawis e chumpis. Cada chumpi ou ñawi tem uma pedra, diferentes em sua forma e desenhos gravados. Estas khuyas são utilizadas para abrir os ñawis, extrair a energia densa e fechá-los, como também para tecer os chumpis, fechando as fissuras de nosso poq’po e criando uma armadura energética.

Os xamãs da Amazônia acreditam que quando limpamos todos os nossos vórtices energéticos adquirimos um corpo de arco-íris. Cada centro vibra na sua frequência natural, e irradia as cores do arco-íris. Segundo a lenda, quando você adquirir o corpo de arco-íris, poderá fazer a viagem além da morte (para o mundo do Espírito). Será capaz de ajudar os outros na sua cura, e poderá morrer conscientemente, desde que saiba o caminho de volta. Os xamãs da selva acreditam que a morte é um grande predador que anda com cada um de nós, tornando-nos seres medrosos dela. Quando os ñawis estão claros, não somos mais assombrados pelo medo da morte, uma vez que a reconheceremos como uma companheira.

ANATOMIA DOS ÑAWIS

Siki – O primeiro ñawi engloba à base da coluna, entre o ânus e os órgãos genitais. É a porta de entrada para o feminino, que estende filamentos luminosos das nossas pernas para a biosfera. Os xamãs andinos os vêem como um vórtice de energia na cor negra. Ele é ligado ao elemento Água que é essencial para a nossa vida, tal quando estávamos no ventre materno. O primeiro ñawi nos fornece nutrientes essenciais. Quando nos tornamos desconectados da essência vital deste ventre, começamos a buscar o nosso alimento da vida a partir da superfície. Como resultado, perdemos a estabilidade, a nossa fundação e segurança. Quando estamos desconectado deste ventre, podemos nos sentir órfãos de mãe. O princípio masculino predomina, e passamos a olhar exclusivamente para a segurança das coisas materiais. A individualidade prevalece sobre o relacionamento, o egoísmo triunfa sobre a família, sobre a responsabilidade social e global. Quanto mais nos desconectados da essência da vida, ficamos hostis com o feminino.

O caminho do primeiro ñawi é o das nossas necessidades básicas, dos instintos primários. Procuramos abrigo e alimentação. Lutamos pela sobrevivência mesmo diante das situações mais adversas. Procriamos. Esses impulsos são instintos fundamentais. Os quatro impulsos instintivos, o medo, a alimentação, a luta e o sexo.

Um indivíduo com a energia do primeiro ñawi estagnada está absorvido exclusivamente pelos sentidos que envolvem o mundo material. Ele acredita que o mundo lhe deve alguma coisa, e que aqueles que o rodeiam devem reconhecer que ele é especial. Torna-se egocêntrico e narcisista.

Há notáveis atributos positivos no Siki. Seus instintos de sobrevivência asseguram a continuação da espécie: Nos levam a acasalar e ter filhos, e permitir que os seres humanos sejam perpetuados sob condições adversas.

Q’osqo – O segundo ñawi está localizado no plexo solar está ligado a elemento Terra e é visto na cor vermelha pelos xamãs. Ele metaboliza os nutrientes em energia para o nosso Campo de Energia Luminosa. Todas as formas de energia representam o alimento para este ñawi. Ele processa a energia da Água enviada para o Siki e digere as energias emocionais no sistema nervoso. Quando o Q’osqo está funcionando corretamente, pode expelir as emoções negativas, como raiva através do primeiro ñawi como resíduos. Ele está associado com o pâncreas. Essa glândula é o banqueiro de energia do corpo.

É o centro de poder no sistema de energia luminosa. Seu poder pode ser usado de forma construtiva, para manifestar as nossas aspirações no mundo. Quando usado destrutivamente pode reprimir a nossa natureza primária ou libido.

O poder feminino e a energia sexual primordial do primeiro ñawi são transformados em um combustível requintado que o Q’osqo utiliza para a realização de nossos sonhos. Ele reabastece as reservas do Campo Energético Luminoso. Quando despertamos o seu poder sentimos uma coragem e determinação que não podem ser intimidadas pela adversidade. Obstáculos em nosso caminho desmoronam. Sua função é transformar a visão em realidade.

Soncco – O ñawi do coração está localizado no plexo cardíaco, no centro do peito. Liberdade, alegria e uma paz duradoura são as características de uma pessoa que vive no centro do seu coração. É o centro a partir do qual formamos nossas famílias e descobrimos o amor com nossos parceiros de alma e de nossos filhos.

O amor do ñawi do coração não é nem o carinho que trocamos uns com os outros, nem o amor romântico. O Soncco vive no Fogo do Amor da Criação. Esse tipo de amor não é objeto focalizado, nem é dependente de outro para sua existência. Ele não é sentimental. É impessoal. Teólogos cristãos chamam de agape. Os Yachacs (xamãs andinos) chamam-no de munay. Esse amor não é um meio para um fim. Não leva ao casamento ou relacionamentos. É um fim em si mesmo. E o elemento fogo fornece o combustível para que seja manifestado. Por estar ligado ao elemento Fogo é visto na cor dourada.

Uma das expressões negativas deste ñawi é uma paixão por si mesmo. O Soncco equilibrado nos permite conhecer a intimidade do verdadeiro amor. Integra o princípio masculino e feminino dentro de nós, assim não é necessário procurá-los mais fora de nós mesmos.

Kunka – Este chakra situa-se no oco da garganta e influencia a glândula tireóide, reguladora da temperatura do corpo. É o nosso centro psíquico, responsável pela clarividência, sensitividade e capacidade de comunicar sem palavras. Um ñawi disfuncional pode resultar em experiências psíquicas indesejáveis. Os distúrbios do sono são comuns quando este ñawi está desequilibrado. Quando o Kunka está claro, começamos a obter o reconhecimento em nossos campos de atuação e adquirir o domínio na nossa profissão. Ele nos dá a capacidade de imaginar futuros possíveis. Você imagina que pode sentir a liberdade com infinitas possibilidades. O terceiro ñawi permite-nos olhar para dentro, tomar consciência dos processos internos. Ele dá voz aos sentimentos do coração.

Seu elemento é o Ar e é visto ao redor do pescoço como um vórtice prateado. A expressão negativa deste ñawi é a intoxicação com o seu próprio conhecimento. Essas pessoas não ouvem os outros em uma conversa. Ter razão é mais importante do que ser compreensivo. O perigo do quarto ñawi é a sua tendência para transformar o discernimento espiritual em dogma.

Uma-Pukio – O ñawi da nossa cabeça é um portal para o Firmamento. A partir desse centro luminoso chegaremos até as estrelas e os nossos destinos. A Terra nos protege e alimenta-nos com a sua força de vida, e o Céu nos impele para o nosso devir. Por estar ligado ao Firmamento ele é visto pelos xamãs na cor azul-violeta e tem como elemento o Éter.

A lição do quinto ñawi é o domínio do tempo. Quando nos libertamos do linear, o tempo de causalidade, não estamos mais sob o domínio tirânico do passado. Estaremos libertos do resultado de um fato anterior, e experimentaremos a liberdade. Poderemos cutucar o futuro.

A expressão negativa deste ñawi é a regressão espiritual. Em nossa cultura de gratificação instantânea, buscadores espirituais muitas vezes querem pular o trabalho com os ñawis “inferiores”.

Aqueles que dominam este ñawi, conseguem poderes incomuns, incluindo lembrar memórias antigas pertencentes à consciência coletiva da humanidade. Um Uma-Punkio desperto permite que o xamã saiba quem ele realmente é. Dá-lhe o conhecimento do passado e do futuro e lhe permite visualizar destinos alternativos.

Além destes acima, os andinos também consideram ñawis os dois olhos físicos. O esquerdo é chamado lluq’i e esta associado ao feminino. Paña é o olho direito e está ligado ao masculino. Ambos desenvolvem o princípio da complementaridade. Quando eles estão em perfeito equilíbrio, a energia kamaq é elevada desde o cóccix até o terceiro-olho, abrindo-o tornando o xamã em um vidente, kawak, e a partir daí ele pode visualizar todas as emanações de energia do Cosmos. Porém estes dois vórtices energéticos dos olhos fazem parte de uma única cinta energética (chumpi ou wincha), que é o qulli.

Em algumas tradições andinas, ainda existe mais dois outros ñawis:

Wiracochan – Este ñawi é conhecido também pelo nome de“fonte do sagrado”. Ele reside a poucos centímetros acima da cabeça, e quando desperto brilha como um sol radiante no interior do Corpo de Energia Luminoso. O Wiracochan é como um carpinteiro que constrói uma cadeira (corpo físico) e depois queima-a em sua lareira. O carpinteiro não sente a perda, pois ele sabe que pode simplesmente construir outra com madeira nova. Este ñawi não é afetado pela morte do corpo.

A expressão negativa dele é o horror cósmico, tal como é vivida pelos que estão presos entre os mundos do espírito e da matéria.

O atributo deste ñawi é a invisibilidade. Neste centro, tornar-se consciente do Sullul (o Espectador) ou Aumakua (na tradição dos Kahunas), um self que esteve presente desde o início da nossa jornada espiritual. Agora, desvinculado da mente, é capaz de contemplar a mente com todos os seus dramas, sem a submissão dos mesmos. As testemunhas dos desdobramentos de nossa vida entendem que todas as histórias que utilizamos para nos descrever são apenas histórias. O Espectador percebe tudo, mas não pode ser percebido em si, porque não pode ser transformado em um objeto de percepção. O Sullul é invisível, pois não pode ser contemplado.

Eventualmente, o Espectador vai começar a revelar a sua própria fonte, que é o Espírito, ou o último ñawi.

O Wiracochan reside no Campo de Energia Luminosa. Pairando acima da cabeça como um sol girando. É a nossa conexão com o Grande Espírito, o lugar onde Deus habita dentro de nós. Quando morremos, o Wiracochan se expande em um globo luminoso e envolve os outros ñawis em um corpo de luz. Após um período de descanso e purificação, o Wiracochan produz outro corpo, como tem feito repetidas vezes sobre tantas vidas. Ele nos leva aos nossos pais biológicos, e para uma vida melhor, não a mais fácil, para adquirir a experiência que necessitamos para crescer espiritualmente. As memórias traumáticas de nossa encarnação anterior são transfundidas em nosso corpo como impressões em nosso Corpo de Energia Luminosa.

A fonte deste ñawi é o próximo, o do Spíritu que reside fora do Campo de Energia Luminosa e se estende por todo o Cosmos. É o coração do Universo, em harmonia com o Grande Espírito. Wiracochan é o lugar onde o Grande Mistério habita dentro de nós, e o Spíritu, a parte de nós que habita dentro do Criador. O Wiracochan a corresponde ao conceito cristão da alma, que é pessoal e finito. O último ñawi corresponde ao Espírito, que é impessoal e infinito.

Spíritu – Este último ñawi reside no coração do Cosmo, fora do tempo e do espaço, e se estende através da vastidão do espaço e se conecta ao Wiracochan por um cordão luminoso. O último ñawi o Eu que nunca nasceu e nunca morrerá. Ele existe desde antes do Universo ter se manifestado.