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Culturas Xamânicas e suas Práticas

A prática do xamã está altamente integrada ao sistema de crenças de cultura e ele deve ser capaz de criar uma atmosfera cheia de confiança, de credibilidade, criatividade e audácia suficiente para comunicar ao paciente que algo poderoso está para acontecer.

Os xamãs da Síberia usam mantos de metal tilitante; cantam, tocam tambores e, quando as emoções atingem um patamar elevado, tentam assustar e afastar os espíritos com gestos aterrorizontes. Na África, os xamãs fazem uma figura de palha, representando o porco, e levam-na à cerimônia de remoção da doença do paciente, e ela passa para o porco. Depois o animal é posto em uma trilha, e aquele que passar por ela chutar o porco absorverá a doença.

Nas curas extramentes sérias, como no caso da perda da alma, os índios Salish, do estreito de Puget, fazem o ritual do espírito da canoa. São convocados entre seis e doze xamãs e, enquanto eles se posicionam em fileiras paralelas, são formadas canoas imaginárias. Cada xamã empunha uma vara ou remo para impelir a canoa e mantém ao seu lado sua prancha mágica de cedro e coberta com a arte visionária de sua primeira aventura com o espírito da canoa. Com o acompanhamento de maracás, tambores e cantos, os espíritos dos xamãs penetram na terra e cada qual entoa a canção de seu próprio espírito guardião. As viagens podem durar de duas a cinco noites ou até que a alma do paciente seja recuperada.

Os xamãs da Guatemala recorrem a uma mistura de crenças indígenas tradicionais e cristianismo, a despeito das fervorosas tentativas dos espanhóis para eliminar o paganismo nas Américas. Os xamãs invocam a intervenção de santos e espíritos, na cura e na adivinhação, usando pedras mágicas, em geral, fragmentamentos de antigas esculturas Maias, como veículo de comunicação. Os serviços dos xamãs, assim como dos “bruxos” que praticam o lado mais negro da magia, são dispendiosos para o povo pobre, equivalendo a uma soma que pode ir de cinquenta a cem dólares. A taxa cerimonial cobre o custo dos preparativos e ingredientes necessários: incenso, velas, flores, jantar, imensa quantidade de bebidas destiladas que os xamãs tomam até ficarem tremendamente eloqüente.

O xamã esquimó entra em transe, viaja a outro mundo, ao fundo do mar e visita a deusa marinha Sedna, para descobrir as causas da doença ou para pedir por outras necessidades dos viventes. Acreditam que Sedna controle a fonte dos alimentos e de todas as calamidades que o esquimó sofre. Em outras épocas, máscaras de animais de poder magnificamente esculpidas e coloridas eram usadas como ajuda para a imaginação do xamã e para que ele fizesse contato com os espíritos dos animais.

Os índios Crow, como guatemaltecos e peruanos, usam pedras como remédio. Essas pedras, encontradas e reconhecidas intuitivamente como portadoras de propriedades de cura, são um instrumento para evocar visões. Conta uma lenda Crow, que Mulher-com-um filho, esposa abandona por índio chamado Vê o Touro Vivo, encontrou a mais famosa de todas as pedras curativas. Na mais profunda das depressões, deixou sua tribo para retirar-se nas novas razões de viver ao encontrar uma pedra multifacetada; de um lado, viu seu marido e, do outro, a silhueta de um búfalo; no terceiro, viu uma águia e, no quarto, um cavalo. Observou também que a pedra tinhas as marcas das patas do cavalo e do búfalo. A mesma pedra mais tarde ficou famosa por muitos fatos: deu sorte no jogo, comandou expedições de guerra, revelou-se fonte de longevidade para seus proprietários e, por aumentar a capacidade visionária, proporcionou um conhecimento antecipado do gado que viria ser introduzido e o estilo de casas européias.

A medicina dos Navahos foi um dos melhores meios de estudo do xamanismo americano. A pintura em areia é o elemento central da cura entre os Navahos: representa a paisagem espiritual e física em que o paciente vive, a etiologia da doença e a mitologia escolhida para a cura. Gladys Reichard descreve o ritual como uma combinação de vários elementos, tais como a sacola de remédios com seus conteúdos sagrados, varetas de oração de madeira e penas, pedras, tabaco, água de lugares sagrados, cordas e intricados quadros em areia. Dão ênfase aos cânticos, a oração, à pintura corporal, à transpiração (purificação), à vigília, visando à concentração e à clareza do pensamento. Durante o ritual de cura, a pessoa doente senta-se perto do cantor e no centro do povo Navaho, que se reuniu para a cerimônia. O poder irradia do centro, na direção de todos os presentes. Durante todo o longo ritual, o paciente é envolvido em um drama simbólico, em especial porque é encorajado a desenvolver e manter continuamente imagens do processo pessoal de cura. A participação nos cantos e nos quadros não é passiva, de modo algum. É preciso concentrar-se com persistência em seu conteúdo mitológico para que o poder do ritual de cura se realize.

De acordo com Reichard, o sistema Navaho combina adivinhação e visualização. A adivinhação é um corolário dos procedimentos de diagnóstico de medicina ocidental. A informação pode vir da natureza ou dos espíritos. Os Navahos determinam a doença olhando fixamente o sol, a lua ou as estrelas, ouvindo ou tremendo. O tremor ou movimentação da mão é induzido durante o ritual apropriado. Os tremores podem levar a grandes tremores corporais e o adivinho entra em outro estado de consciência: nesses estados de poder os símbolos de cura são visualizados. Reichard descreve o olhar fixo, que também pode acompanhar o tremor, como visualização do símbolo como imagem posterior do corpo celeste em que a concentração se focaliza.

Os Navahos recorrem aos ervários apenas para obter alívio dos sintomas, mas o verdadeiro trabalho curativo é realizado pelos xamãs “cantores”. Os fatos de esses curadores não usarem substâncias orgânicas é visto como uma posição de status. Eles simplesmente trabalham com sua memória e energia necessária para levar a cabo de cinquenta a cem horas de cântos ritualísticos.

É espetacular como o xamanismo se manifesta em diferentes culturas. Ao analisá-las, podemos concluir que a viagem através das passagens para a consciência superior é a mesma, independente de como e onde começou a viagem xamânica na realidade ordinária. As descrições de vários métodos xamânicos de diagnósticos e cura são muito semelhantes: entrar no paciente, tornar-se o paciente e restabelecer o sentido de vinculação com o universo. Em todas as tradições, tudo isso acontece em um estado de consciência muito diferente daquele que vigora quando se guia um carro ou se escreve uma receita. As contribuições culturais são princípios básicos da cura são em grande parte decorrentes dos tipos de recursos locais que possam servir como “remédio”. A medicina, então, pode ser descrita de duas maneiras: primeiro como veículo que transporta o xamã (e freqüentemente, o paciente) para o estado de consciência necessário; segundo, como símbolos materiais do estado de cura, sacolas de remédios, arte sagrada, objetos invasores removidos do paciente, animal de poder, pedras que curam, etc.

No entanto, um xamã “completo”, teoricamente, não precisa desse tipo de remédios, usando em vez deles, apenas seus bem desenvolvidos poderes imaginários. Símbolos e rituais que culturalmente têm poder, ao que parece, são necessários para abrir o mecanismo de cura do paciente, que, espiritualmente, não é tão bem treinado quanto o xamã.

Finalmente, para os xamãs de todos os tipos, não há distinção entre o corpo, mente e espírito. O corpo é mente e a mente é espírito. Embora a terminologia por mim empregada pudesse indicar que os xamãs estão lidando com corpo, mente e espírito como entidades separadas, não é bem assim no sentido literal. Nem mesmo tecnicamente os xamãs se deslocam dos lugares para os reinos espirituais, porque são a mesma coisa. O ser é a pedra, e a pedra é o universo. O xamã não pensa: “O espírito entra na matéria”, mas “presume que o espírito está desde sempre na matéria, é a matéria, não é apenas na doença, mas desde o momento da corporificação e no início da própria criação”. Entretanto, não é incorreto, ao mesmo tempo, reconhecer as qualidades individuais do corpo, da mente e do espírito. Nesse sistema são considerados partes um do outro e separado entre si, assim como a árvore é parte e está separada da terra e do céu.

Para compreender essa unidade total, é importante perceber como somos tolhidos pelas limitações lingüísticas. A atividade da consciência é imaginária é mais poesia do que prosa, e é imperfeitamente compreendida quando a língua é usada para descrevê-la. Para descrever propriedades que não podem ser observadas, os físicos recorrem à matemática e às analogias visuais; do mesmo modo, os xamãs recorrem aos símbolos e rituais. Infelizmente estamos limitados a um sistema de linguagem que evolui de uma visão muito específica da realidade e, assim, as expressões verbais nele empregadas devem ser consideradas meras tentativas de apontar para a dinâmica não-verbal da imaginação.

Wagner Frota