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Trilhando o Caminho Inca

“Caminhante, são tuas pegadas o caminho e nada mais; caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar. Ao andar se faz caminho, e ao voltar a vista atrás se vê a senda que nunca se há de voltar a pisar. Caminhante não há caminho senão marcas no mar…”

Antonio Machado

Estou mais uma vez fazendo a famosa Trilha Inca até Machu Picchu, na primeira vez em 2001 saí do Km 88 na vila de Qoriwayrachina e fiz o trajeto em três dias e duas noites, já em 2002 partimos de Cochabamba no Km 104 com a duração de sete horas de caminhada até a Porta do Sol (Inti Punku) que é a porta de entrada clássica da Cidade de Cristal dos Incas de todos aqueles que fazem o Caminho Inca até lá.

Ao começar a dar meus primeiros passos agora em 2024 desde Salapunku no Km 82 a 2700 metros acima do nível do mar, com o um grupo de antigos e novos amigos, lembro das palavras de Mama Julia em 2001 em que: “existem muitas trilhas incas mas só um Caminho Inca, que é atravessado há centena de anos pelos yachacs, a linhagem de homens e mulheres de conhecimento dos Andes.

As trilhas do Caminho Inca pelos Apus (Montanhas Sagradas), percorrem por estradas a mais de seis mil metros de altura, e descem por brechas de névoa que cobrem o vale de Vilcanota e nos levam até os templos em Machu Picchu. O “Grupo Chaski” e eu estávamos em uma Busca Visionária (Maskhay Qhaway). Nossa jornada não tinha como meta a chegada até Machu Picchu, mas sim uma viagem interior aos confins de nosso ego, que exige um contato com a imensidão que nos cerca. É antes de tudo um integrar-se ao sentimento de totalidade. Ao final da jornada entenderíamos por que os homens e mulheres viajam pelo Caminho de Santiago, ou peregrinam pelo caminho do Buda e a estrada que leva a Meca. Segundo um antigo ditado andino: “Todo mundo tem um futuro, mas só alguns têm um destino”. Nós estávamos viajando em direção ao nosso destino.

Tata Inti, o Pai Sol, esteve conosco durante toda nossa subida seguindo o rio Kusichaka e depois pelo Quesq´a que ia em direção ao Apu Salkantay. Paramos no entroncamento que de um lado nos levaria à sagrada montanha e de outro até Machu Picchu. Desde que havíamos saído do Km 82, tínhamos parado rapidamente em Willkarasqay (Galpão Sagrado), onde podemos apreciar nas encostas do Cerro Casamentuyoq o sítio arqueológico de Llaqtapata e seguimos viagem. Porém na pequena parada nesta bifurcação, paramos para enchermos nossas garrafas d’água e descansar um pouco.

Após nosso descanso, continuamos a jornada em direção a Wayllabamba, a 2.974 metros num local repleto de aquedutos incaicos, onde acampamos naquela noite. A caminha do primeiro dia foi fácil para os nossos padrões, e durou algo em torno de sete horas num total de 7Km. Mas a jornada do segundo dia prometia ser a mais árdua de todo o nosso trajeto, por essa razão dormimos cedo após uma refeição frugal preparada pelos nossos cozinheiros.

As quatro da matina somos acordados com um mate de coca em nossa barraca, fazendo despertar nossa energia para seguir adiante até Warmiñuska após o nosso café da manhã. Depois de caminharmos um pouco mais uma hora, passamos por Llulluchampa (3.760 msnm) onde podemos avistar o Apu Wakaywillka (Lágrima Sagrada) pela primeira vez e, após passarmos o rio Llullucmayoc, a vegetação ficou cada vez mais densa e um vento frio nos castigou durante um enorme percurso só de subida. Quebrando o silêncio, brinquei dizendo que estávamos subindo tão alto que terminaríamos indo além das nuvens. A Passagem da Mulher Eterna (Abra Warmiñuska) fica a 4.215 metros de altitude e a partir daquele momento as nuvens seriam uma parte constante da paisagem. A temperatura tinha caído. O trajeto final estava exigindo o máximo de nós, as pedras estavam muito escorregadias e subíamos numa angulação de 60 graus e, para piorar, a falta de ar aumentava a cada passo nosso, devido à alta altitude. Todas essas intempéries não nos fizeram desistir da escalada que terminou sendo uma grande aula de como caminhar com paixão na natureza.

Subindo com firmeza, lembrei-me do que Mama Julia havia dito em 2001 antes de começarmos a fazer o Caminho Inca: “Meu avô, que era Q’ero, me ensinou que seu povo vive em completo ayni com a natureza, entre eles, e com o Universo. Ayni em runasimi (língua do povo) quer dizer reciprocidade, ou equilíbrio. Significa ter uma relação síncrona com a natureza, com os três mundos da cosmologia andina, e com o ego. A vida para os Q’ero é um espelho da nossa relação com a natureza, e ayni é caminhar com beleza e amor por toda vida. Também significa pisar com graça e ternura na superfície de nossa verdadeira mãe, Pachamama, a nossa Santa Madre Terra.

O vento aumentou violentamente e a escuridão das nuvens começou a nos envolver. Nossas pernas nos levaram lentamente para cima pelos degraus de pedra que séculos antes tinham sido usados pelas sandálias dos chaskis (mensageiros) e iniciados da tradição espiritual andina. O vento frio percorria por nossos agasalhos e botas, fazendo com que provássemos a energia do universo (kawsay pacha). Em cada célula de nossos corpos sentíamos essas coisas que podem ser conhecidas, mas não ditas. Nós estávamos vestindo nossos corpos de jaguar, renunciamos parte de nós mesmos para a energia arquetípica de Otorongo, o Grande Jaguar das tradições andinas que salta entre os mundos. Eu conhecia muito bem aquela energia que fluía pelo meu ser. Estava morrendo com dignidade com um sorriso nos lábios ao percorrer o Caminho do Guerreiro e mais uma vez sentado ao oeste da Roda da Medicina Wayra.

As Rodas da Medicina encontrada nas culturas indígenas são um modo de organizar o mundo de acordo com os poderes da natureza na qual somos intimamente ligados pelas energias que nos circundam. Toda cultura nativa tem uma versão da Roda da Medicina. A percepção do mundo fica cada vez mais acessível ao caminhar pela roda. Nos meus estudos descobri que a Roda da Medicina Wayra é um caminho de conhecimentos e esclarecimentos que são passados aos iniciados. No Norte da Roda da Medicina Wayra, o aprendiz joga fora seu passado como uma Serpente deixa a sua pele, tudo de uma só vez, como um ato de amor, um ato de poder. No Oeste, os iniciados trilham com Otorongo, o Jaguar do Arco-Íris, pela fenda entre os mundos, onde ele vê a face da morte, e é reivindicado pela vida. No Sul, o iniciado se encontra com os Ancestrais, aprende os ensinos do Grande Mistério, e utiliza-se da energia de Kenti, o Beija-Flor que consegue fazer o que não pode ser feito. O Leste é o lugar do visionário, é lá que o iniciado aprende a voar nas asas do Kuntur e a trazer os presentes de magia e visão ao nosso mundo.

Ao começar a percorrer o Caminho Sagrado do Xamanismo e ser iniciado por Águia de Coração Leve em 1996, realizei o trabalho do Norte da Roda da Medicina Wayra sem saber que o estava fazendo. Na iniciação, nós removemos os paradigmas que já não nos servem, e quebramos com as convenções que nos foram impostas desde nosso nascimento, mas nunca concordamos. Para os yachacs (xamãs andinos), renunciando um passado que não nos serve, que nunca pode nos servir, não é uma destruição desses pedaços um por um, mas sim destruí-lo de vez, agindo como um ato de amor e de poder. Na Roda da Medicina dos Ventos isto é simbolizado pela energia da serpente arquetípica, Yacumama. A Serpente que troca sua pele completamente em um só movimento, como uma afirmação de vida.

Na tradição andina, deixamos nosso passado coletivo, e este é levado por Otorongo. Segundo a Tradição Iniciática Nativa Andina, o Jaguar é a incorporação do guerreiro luminoso que vive sem medo, e que não tem inimigos neste mundo ou em outros mundos. No Caminho Inca sentíamos a respiração do Otorongo profundamente em nossas barrigas com cada inalação que dávamos ao caminhar pelas pedras lisas gastas pelos pés daqueles que passaram por ali em suas jornadas séculos atrás. Nossos corações bombeavam sangue cheio de energia. Nossos olhos encontravam as posições mais seguras aos nossos pés para não escorregarmos.

Na Passagem da Mulher Eterna, em minhas mãos eu segurava uma pequena pedra que tinha recolhido no começo do caminho. É um costume andino fazer oferecimentos aos Apus quando se alcança uma passagem. Uma pedra que esteve conosco, que seguramos e fez parte da jornada, é um presente tradicional. Durante nossa caminhada, as pedras que levamos tinham se tornado nossas amigas e companheiras. Elas tinham nos contado suas histórias, e nós compartilhávamos as nossas com elas. Elas tinham nos emprestado sua energia e tínhamos lhes dado um pouco da nossa.

Quando alcançamos a passagem, as nuvens pareceram ficar mais espessas e uma névoa clara encheu o ar, estávamos literalmente nas nuvens. O som de uma flauta andina chegou aos nossos ouvidos, mas não sabíamos de onde vinha. Cada um de nós procurou um lugar para realizar uma cerimônia privada de gratidão, com nossas companheiras pedras, que receberiam nova casa naquele lugar. Ao depositá-las naquele pedaço da Mãe Terra, deixamos uma parte de nós mesmos, uma linha luminosa a partir daquele momento nos conectaria com a consciência das montanhas. Dizemos “Hasta Pronto” a elas porque sabíamos que voltaríamos a nos encontrar. Olhamos para trás para o que tínhamos sido, e para frente para quem estávamos nos tornando. Sem qualquer vacilação, começamos a descida lentamente. Porém a escuridão e o ventos ficaram mais intensos e tivemos que descer rapidamente de Warmiñuska, até o nosso acampamento em Paqaymayu (3.600 msnm), porém no meio da descida ficamos sem água e tivemos que encher as nossas garrafas num Riachuelo que nos acompanhou durante todo o caminho.

Ao final olhamos para trás e, de longe, vimos as colinas arredondadas que flanqueiam a passagem e se transmutarem na silhueta de uma mulher. A colina maior tornou-se uma face angelical e serena. Já as colinas menores, os seios, seguidos pela barriga levemente aveludada. Tínhamos caminhado literalmente para o outro lado da barriga da Mãe. Havíamos feito esse trajeto com graça, beleza e amor.

No acampamento, largamos nossas mochilas no chão e tratamos de descansar em nossas barracas até sermos chamados por nossos guias para almoçar após a chegada dos demais membros do grupo Chaski.

A árdua subida até os 4.215 mts da Warmiñuska, além de sua beleza e das possíveis analogias para nossa vida, determinou em meu ser o sentido desta caminhada. Não fui lá para buscar o meu espírito como fiz anteriormente em 2008 no Apu Ausangate, imerso na realidade externa. Mas também fui buscando encharcar a minha alma de energia poderosa desta terra, como talvez tenha feito na primeira vez que lá estive. Voltei ao Caminho Inca para buscar o equilíbrio entre dois tempos de minha vida, para trilhar o caminho do meio, entre meu espírito e minha alma, pois estava na zona topográfica intermediárias entre estes dois estados, entre os vales e as altas montanhas. Caminhava com um pé em cada realidade, que correm paralelas, a realidade ordinária do cotidiano e a realidade extraordinária e alternativa.

Pela manhã, sob a luz da Lua Cheia, podíamos ver que as nuvens continuavam ao redor dos cumes dos Apus e por todo o Vale Sagrado. Levantamos acampamento às quatro horas (mais uma vez) e começamos nossa subida até Runkuraqay (3.950 msnm). Lentamente, sentíamos toda respiração como um presente, pisamos nas pedras polidas por séculos de chuva e recebemos os primeiros raios solares.

Continuamos nossa caminhada, subindo mais alguns tantos metros até chegarmos um pequeno sítio arqueológico chamado Runkuraqay (Galpão Ovóide). Uma paisagem maravilhosa se abriu na nossa frente. Sentia como se estivesse de volta a Ausangate, quando olhava emocionado a Laguna del Jaguar.

Nossa próxima parada seria a cidadela de Sayacmarka, o “Templo nas Nuvens”, onde nos posicionaríamos no Sul da Roda da Medicina Wayra, a posição do mestre do conhecimento. Em Sayacmarka chamaríamos os Ancestrais, os que vieram antes de nós e aqueles que ainda virão, para compartilhar conosco seus conhecimentos e mistérios.

Estávamos no meio da manhã quando avistamos a cidadela de Sayacamarka, que fica a 3.650 metros de altura. Aguçando meus olhos, tive uma visão particularmente majestosa das montanhas e vales. Consegui ver que em mais ou menos dez minutos de onde estávamos surgia uma cidade que parecia estar literalmente nas nuvens. Em pé, assistíamos deslumbrados Sayacmarka desaparecer e reaparecer com as nuvens rodando suavemente ao seu redor.

Enquanto apreciávamos aquele visual totalmente mágico, me lembrei de Mama Julia em 2001 com sua doce voz, falando sobre o arquétipo do Sul da Roda da Medicina Wayra: “O Beija-Flor migra por milhares de quilômetros com sua aerodinâmica que não parece ser feita para voar. Ele representa o retorno à fonte e a habilidade para fazer o que não pode ser feito. É dito que Kenti sussurra nas orelhas dos iniciados uma doce canção de conhecimento. Sua melodia é uma canção de mistério, amor e poder. A lenda nos conta que todo telhado dos edifícios em Machu Picchu foi coberto com penas de Beija-Flor, e que a luz do sol matutino que refletia sobre eles lançou um brilho de conhecimento em cima dos Apus circunvizinhos”.

Ao entrar e me sentar contra as paredes de pedra na câmara oval de Sayacmarka. Senti que suas paredes permaneciam vivas durante séculos, e com uma energia repleta de conhecimento e sabedoria ao nosso redor. Fechei os meus olhos e meditei. Vi um Jaguar Negro surgir à minha frente, fazendo com que eu montasse em suas costas e saltou em direção ao céu. Viajamos por dimensões das realidades que nunca havíamos estado, senti o leve toque desses seres encantados que estiveram por aqui anteriormente e dos que ainda virão.

Escutei os sussurros dos antigos contando contos de conhecimento e poder. Era como se estivesse reunido num grande conselho de anciões numa Caverna de Cristal, e os conhecimentos surgissem como chuvas de prata. Dentro da caverna era possível ver milhares de rostos em suas paredes. Rostos que estavam ali desde a noite dos tempos. Rostos que eram a própria caverna. Eram os rostos daqueles que vieram antes de nós e que ficariam depois. Eles transformavam-se a minha frente renovando-se a cada instante. Eu me via em um deles usando um cocar esmeralda e dourado. Aprendia com aqueles olhos que me observavam. Sentia os olhos cor de âmbar do Jaguar ao meu lado. Comecei a piscar saindo do estado meditativo e pude ouvir o guia dizendo que era hora de descermos, pois tínhamos que nos apressar até o acampamento onde almoçaríamos.

Ao chegarmos em Phuypatamarka (3.601 msnm), uma pequena névoa nos circulava, mas ao terminar de almoçarmos e levantar acampamento, a névoa tinha sumido e vislumbramos um arco-íris que seguia em direção a Machu Picchu. Dentro de nós, um sentimento muito forte de que caminhávamos para casa. Flores amarelas e vermelhas se misturavam ao verde enquanto descíamos em direção a Wiñay Wayna.

Pegamos outra descida daquelas, durante um percurso de cinco quilômetros, no qual lutávamos para nos mantermos em pé e com o precipício sem fim ao nosso lado.

As trilhas do Caminho Inca têm que ser feitas olhando para baixo em 99% do percurso, mais precisamente para o solo sob nossos pés, pois qualquer descuido é queda na certa. Uma pisada não muito firme, um erro de cálculo na passada ou um simples escorregão bastam para atrapalhar consideravelmente os planos. Nesses momentos, o uso do bastão é fundamental. Perdi a conta do número de vezes em que o bastão me salvou, principalmente nos declives, pois, além de servir de apoio, de diminuir o impacto, serve para dar equilíbrio… o que é prioridade ao fazermos o Caminho Inca.

Mas por fim chegamos ao nosso acampamento em Wiñay Wayna que ficava à altitude de 2.640 metros sem nenhuma queda. Na tradição andina, as limpezas e purificações são extremamente importantes. E isto é evidente pelo número de banhos rituais localizados nos sítios arqueológicos ao longo do Caminho Inca, como também nos rituais que sempre eram realizados pelos yachacs. A água é como uma fonte depuradora dos Incas e eles construíram complexos sistemas de canais de pedra dentro de suas cidades para levar a água da barriga do Apus para os famosos banhos incaicos, o sítio arqueológico é uma destas construções em que existem uma série deles porém devido ao cansaço da longa jornada a maioria de nós não pode apreciar e explorar este local de poder.

Wiñay Wayna, é nome dado em homenagem à orquídea andina mesclada de vermelho e amarelo, que cresce junto com flores violeta. Essa planta está presente por pelo menos nove meses no decorrer do ano, e significa “sempre jovem”.

Naquele momento lembrei-me que havia aprendido com Tayta Matzú que o Leste é o lugar do visionário. O local de aparecimento. O lugar de poder onde é trazida a magia do mundo à vida cotidiana. Sua energia arquetípica é representada pelo Condor ou Harpia, o ser que vive sobre as nuvens e de quem a visão se estende além do horizonte, do tempo e do espaço. Kuntur nos ensina a planar para esses lugares em que nunca havíamos estado antes. Numa completa sintonia, ao olhar para o céu, vi uma enorme ave com sua imponente envergadura planando suavemente sobre as montanhas andinas. Lágrimas quentes correram pela minha face suja da poeira do caminho, lavando-a. Talvez aquela visão do pássaro tenha sido uma das mais importante da minha caminhada como buscador. Em completo silêncio, orei ao Grande Espírito por ter me dado forças para chegar até ali, e pedi que me permitisse seguir caminhando sempre.

Durante a madruga, uma chuva caiu sobre o nosso acampamento. Felizmente às 3:00 quando nos levantamos, ela havia cessado, porém durante toda caminhada até Inti Punku ela se fez presente várias vezes até cessar perto de nosso destino.

Fizemos a parte final de nossa peregrinação em completo silêncio. Caminhando em cima de regatos que cortam o caminho de pedra, rodeados por flores coloridas e de várias fragrâncias pudemos refletir sobre nossa jornada: a que tínhamos realizado e que ainda estávamos realizando; a jornada de nossas vidas que tinham reunido este grupo em um lugar onde as pedras falam, pássaros sussurram doces melodias de conhecimento, e os ecos dos antigos chegam aos nossos ouvidos ricocheteando entre os Apus. Éramos estranhos quando nos encontramos pela primeira vez. Agora, éramos mais que amigos. Tínhamos nos tornados companheiros, andarilhos conectados pelos laços luminosos que foram tecidos por nós mesmos. Tornamos amantes do conhecimento, da verdade, da beleza e dos povos da terra.

Era uma pena não ter a presença física do meu Hermano Condor Charrua (Vicente Marmo), mas ele também fazia parte dessa jornada e estava conosco conectado. O conheci em 2000 quando da minha primeira estada no Peru, e desde lá surgiu um forte laço de amizade e irmandade entre nós. Ele havia feito naquele ano o Caminho Inca após enfrentar um câncer de intestino e fazer toda a trilha com uma bolsa de ostomia, além de ser diabético. Infelizmente em 2022, ele fez sua passagem para o Acampamento do Outro lado da Vida… e por causa dele, resolvi fazer o Caminho Inca Clássico pela última vez aos 61 anos (a mesma idade que ele tinha quando o conheci).

Durante o silêncio foi fácil refletir sobre o que tínhamos sido, e o que deixamos para trás. Era fácil dizer adeus para todos os antigos hábitos que já não nos serviam mais. Caminhando nos Andes, no mundo do Jaguar, do Condor, da Serpente e do Beija-Flor, nada é impossível. Nosso destino seria algo que nós escolhemos, mas havia uma infinidade de possibilidades de caminharmos até ele.

Em silêncio alcançamos a última subida de nossa jornada. Era conhecida como a escadaria do Puma porque não pode ser caminhado, normalmente tem que ser escalado num ângulo de quase setenta graus e nos levaria para os limites da cidade de Machu Picchu. Escalamos aquelas pedras lisas e molhadas da chuva. Quando chegamos ao topo, estávamos em Inti Punku, o Portão de Sol. Apesar do tempo nublado, alguns raios de sol iluminaram os gramados verdes e finalmente pudemos ver as pedras dos edifícios de Machu Picchu e mais adiante a montanha de Wayna Picchu com a face do Puma incrustada nela. Bebemos da beleza e do poder da criação. Contemplamos nossos destinos. E nos sentimos em casa mais uma vez, presentes no aqui e agora.

Apesar da convivência dos membros do nosso grupo ter sido harmônica, cada um realizou o seu mergulho na altitude e sua ascensão interior, dentro do seu próprio Ser.

Nos Andes estamos sempre transcendendo, colocando o movimento de nossa consciência e de nosso corpo para além de nosso limite, nosso objeto ou objetivo nos demonstra nossa incompletude, o que explica a busca por esse sentimento de totalidade.

No Caminho Inca, poucos são os que não têm preguiça ou medo de seguir adiante, ou se entregam à dor e ao cansaço. Lá no alto do Inti Punku, olhando para Wayna Picchu de um lado e do outro o Apu Putukusi, pude ter a certeza de que seguir o caminho é estar disposto a subir montanhas, descer vales, caminhar em desertos, cair em abismos e sair de lá com a força do intento. Mas o meu maior presente ao vencer todas as intempéries é o êxtase de perceber o pulsar da vida em toda a natureza que nos circunda.

Munay,

Wagner